Mensagens

Tu tens tempo! Tu não tens emprego e vives com o dinheiro da tua mãe. Mas tu tens tempo! A tua casa desmorona-se à tua frente. Mas tu tens tempo! Os teus pais envelhecem e adoecem e a Morte espreita. Mas tu tens tempo! Tu estás sozinho, sem o amor de uma mulher. Mas tu tens tempo! A tua saúde vai-se desvanecendo como uma leve neblina matinal. Mas tu tens tempo! Tens um revólver carregado encostado à tua testa entre os teus olhos. Mas tu tens tempo! Tempo é coisa que não te falta. 

A condução mais tudo o resto.

Conduzir na Maia é viver um épico, aliás, como utilizo diariamente o meu carro porque a oferta de transportes públicos é quase inexistente, conduzir na Maia é reviver incessantemente um épico. De manhã cedo, quando entro no carro e carrego no botão da ignição, surge-me sempre a mesma pergunta como se se tratasse de um disco a tocar mórbidamente a mesma ígnea música: " O que me vai acontecer hoje na estrada?". Nestes anos como condutora tenho visto muita coisa ruim mas de 2013 para cá, por algum motivo que ainda não consigo entender, tenho visto uma deterioração muito acentuada na postura dos condutores e condutoras - ambos os sexos são igualmente perigosos quando estão dentro do seu carro - talvez será melhor dizer castelo! A mim choca-me ver o desrespeito completo pelo Código da Estrada - não sei se os poucos leitores deste obscuro blog também se chocam - mas, acima de tudo, acima do desrespeito pela Lei entranhado nos interstícios das entranhas lusitanas, está o desrespeito...

O Esforço De Um Homem

Capítulo 1 O homem que encontrou um caminho e pensou para si mesmo que aquele não era o caminho certo para o levar ao destino que tinha em mente. Calcorreou a floresta densa durante vários dias, acampando ali e acolá, comendo pequenos frutos e animaizitos que conseguia apanhar com o seu cajado. Bebia a água fresca que escorria de largas folhas ao amanhecer. Era leve e gelada e parecia-lhe limpar as entranhas fazendo-o sentir-se bem e revigorado. Após o breve pequeno-almoço de água e restos do jantar, prosseguia sédulo a sua caminhada árdua por entre o emaranhado de plantas e raízes que pertenciam à floresta. Passaram-se vários dias e a fraqueza já fazia vacilar o pobre homem. Os olhos secavam, as articulações doíam como se estivessem a ser perfuradas por finas agulhas e os músculos ficavam presos num espasmo muito doloroso. Na sua mente vagueavam ideias de desistência, pensamentos ruins de auto-destruição e as memórias da família que deixou para trás e que esperava o...

As Noites Frescas e o Desejo de Morrer.

Eu não tenho jeito para escrever relatos detalhados da minha vida quotidiana. Disperso-me rapidamente por outros assuntos porque não tenho paciência para descrever os pormenores das minhas rotinas. Nestes últimos dois dias sofri com enxaquecas e pouco fiz além de colocar em dia a leitura de alguns artigos de jornais que imprimi. Com todo aquele burburinho na política americana há sempre textos interessantes para ler. Mas não me apetece falar agora de política. Ouço o metro a passar mais além - ainda é cedo, são apenas 01:32 da manhã. Lá para as duas da manhã os comboios param até às cinco; é o novo horário de Verão em vigor. No Inverno circulam toda a noite e são bem necessários. Também ouço uns pássaros a chilrear e as vacas da vacaria do primo da Isabel a baterem nos gradeamentos - pobres animais que passam a vida inteira enfiados naquele armazém a serem sugados até ao tutano. Porque será que não organizam uma rebelião? Talvez seja o mesmo motivo que mantém o povo portugu...

Como posso ser?

Os dias vão desfilando mais ou menos risonhos. Já há muito tempo que eu deixei de olhar para o Mundo como se fizesse parte dele. Sinto-me o mero espetador de um cortejo que vai desfilando perante o meu olhar mortiço como uma coleção festiva de sombras chinesas. Eu não sou parte do cortejo porque o Universo conspirou para que eu me mantivesse do lado de fora das linhas laterais. Já não jogo o jogo! Talvez seja o castigo por não ter aproveitado com respeito as oportunidades que me foram dadas para jogar. Talvez o verdadeiro culpado por esta situação de desastre em que se encontra a minha vida seja eu. Eu sou o assassino da minha existência de sonho. Meu Deus, como eu tinha planeado ser feliz quando chegasse aos 40! Bem empregado! Bem casado! Um orgulho para os meus pais! Nunca isto que sou! Nunca um neurótico, constantemente atolado numa depressão, viciado em analgésicos, com tendências suicidas que, neste ou naquele dia, olha à sua volta e com os olhos de gente, que ainda se aguen...

Um caso simples chamado Inês

A intuição nunca deve ser subestimada e também não deve ser sobrestimada. Usar a intuição é como fazer equilibrismo numa corda. Temos de estar atentos e nunca deixar que a nossa imaginação tome conta do nosso raciocínio. No dia em que decidi telefonar à Inês eu estava a seguir a minha intuição. Existiam partes da nossa história em comum que eu não conhecia e outras que eu tinha interpretado mal. Passados doze anos após a última vez que estivemos juntos era necessário que ficasse realmente a conhecer a Inês. Há já muito tempo que eu me atribulava com a culpa. Foi assim que eu interpretei as causas do fim do nosso relacionamento. Coloquei-a num pedestal, tratei-me mal e deixei que ela me maltratasse e jogasse o seu jogo. A Inês é um espírito traumatizado por alguma tragédia e, talvez por isso, tem muitas dificuldades em lidar com as responsabilidades que advêm dos seus atos. Num conflito ela adopta uma de duas estratégias: ou fecha-se como uma ostra ou distorce os argumentos da outr...