O Esforço De Um Homem
Capítulo 1
O homem que encontrou um caminho e pensou para si mesmo que aquele não era o caminho certo para o levar ao destino que tinha em mente. Calcorreou a floresta densa durante vários dias, acampando ali e acolá, comendo pequenos frutos e animaizitos que conseguia apanhar com o seu cajado. Bebia a água fresca que escorria de largas folhas ao amanhecer. Era leve e gelada e parecia-lhe limpar as entranhas fazendo-o sentir-se bem e revigorado. Após o breve pequeno-almoço de água e restos do jantar, prosseguia sédulo a sua caminhada árdua por entre o emaranhado de plantas e raízes que pertenciam à floresta. Passaram-se vários dias e a fraqueza já fazia vacilar o pobre homem. Os olhos secavam, as articulações doíam como se estivessem a ser perfuradas por finas agulhas e os músculos ficavam presos num espasmo muito doloroso. Na sua mente vagueavam ideias de desistência, pensamentos ruins de auto-destruição e as memórias da família que deixou para trás e que esperava o seu regresso com algum dinheiro, roupas novas e sementes para colocar no seu pequeno campo. Recordou por entre um jorro encorpado de lágrimas as caras de todos eles no dia em que partiu. Com quatro passadas largas saiu do pequeno pedaço de terreno que era a sua propriedade - o segundo bem mais valioso que tinha nesta Terra esquecida por Deus - e com os pés já assentes na estrada de terra batida virou-se e encarou-os , esforçando-se vigorosamente para acender uma pequena chama de esperança no seu olhar. Sabia, então, que o tempo era curto pois não havia muita comida para manter a sua esposa e os seu três filhos. Agora, ali, na densa floresta, sentado no tronco de uma árvore morta, o seu peito afundava-se numa angústia impiedosa. Já passara muito tempo e ele continuava na busca do caminho que o levasse à grande cidade do sul, à beira do mar, onde grandes navios paravam para descarregar grandes quantidades de tudo de quase todo o Mundo. A imagem da cidade que surgia na sua cabeça era muito vaga. Tinham sido muito poucos aqueles do seu povo que se aventuraram até à longínqua promessa de uma vida melhor. E de lá vieram sem vontade de explicar o que era a cidade. Mudos a maior parte do tempo, arrastando no seu corpo lesões extensas que truncavam os seus movimentos naturais e o olhar contraído num esgar de dor e levemente enevoado, evitavam com grunhos e gestos bruscos a curiosidade daqueles que, apesar de viverem ali ao lado deles, pareciam já não ser considerados como vizinhos e amigos. Como não tinha os valiosos relatos, imaginava longas ruas com lojas de ambos os lados e muita gente vinda de todos os sítios do Mundo para comprar e vender. Certamente haveria muito trabalho pago para um homem robusto como ele, com o corpo bem moldado pelo trabalho árduo do campo. Disseram-lhe, na sua aldeia, onde ninguém sabia fazê-lo, que era muito importante saber ler e escrever e que aqueles que o sabiam fazer eram gente de muito valor em qualquer sítio. E subitamente surgiu na sua mente a imagem da placa embutida na parede do pequeno templo da sua aldeia. Todos aqueles desenhos coloridos que a preenchiam na totalidade eram uma oração à Divindade que protegia o seu povo mas, apesar de horas a olhar para eles, ele nunca conseguira decifrar um único desenho. O ancião do templo repetia a oração várias vezes ao dia mas seria exatamente o que estava ali registado na pedra pela mão da Divindade? O pobre homem sempre suspeitou da honestidade do ancião. Nunca gostou da forma como os seus olhos pisqueiros se arregalavam como duas luas cheias quando ia ao cesto das oferendas no fim das celebrações religiosas. Uma intuição muito forte levava-o a acreditar que aquilo que ouvia da boca do ancião era apenas uma versão abreviada do que tinha sido escrito na pedra e ele, um pobre agricultor, fadado a ser pobre e a ser agricultor até ao dia do seu encontro com o esquife, numa busca desesperada por uma vida melhor para a sua família, iria ler toda a oração para agradecer pessoalmente à sua Divindade protetora todo o bem que lhe foi dado sem nada ter sido pedido em troca.
Subitamente, um ruído estranho despertou-o do seu pensar. O que seria? E o medo veio expedito.
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