Um caso simples chamado Inês
A intuição nunca deve ser subestimada e também não deve ser sobrestimada. Usar a intuição é como fazer equilibrismo numa corda. Temos de estar atentos e nunca deixar que a nossa imaginação tome conta do nosso raciocínio.
No dia em que decidi telefonar à Inês eu estava a seguir a minha intuição. Existiam partes da nossa história em comum que eu não conhecia e outras que eu tinha interpretado mal. Passados doze anos após a última vez que estivemos juntos era necessário que ficasse realmente a conhecer a Inês. Há já muito tempo que eu me atribulava com a culpa. Foi assim que eu interpretei as causas do fim do nosso relacionamento. Coloquei-a num pedestal, tratei-me mal e deixei que ela me maltratasse e jogasse o seu jogo. A Inês é um espírito traumatizado por alguma tragédia e, talvez por isso, tem muitas dificuldades em lidar com as responsabilidades que advêm dos seus atos. Num conflito ela adopta uma de duas estratégias: ou fecha-se como uma ostra ou distorce os argumentos da outra parte, usa-os para atacar e muda rapidamente de assunto. É extenuante manter uma conversa com ela. Uma simples conversa! Se há um ponto de conflito ela faz uma questão de honra em não perder o conflito mesmo que seja confrontada com lógica ou argumentos que deitem por terra as suas ilusões. Usando a táctica da distorção seguida da fuga ela faz descarrilar constantemente a conversa e aquilo que precisa de ser dito num diálogo franco acaba sempre por se perder nos constantes desvios. Pintar os outros como adversários é um comportamento mórbido da Inês. Só alguém que diga "Sim!" a tudo o que sai dela é que consegue escapar a essa bipolarização. Eu sou o branco e tu és o preto! Eu sei e tu não sabes! Eu só te faço bem e tu só me fazes mal! Eu sou a boa pessoa e tu és o monstro! Obviamente a maioria das pessoas não reage bem a esta hostilidade. A escalada do conflito é inevitável e assim que a Inês sente que está a perder o chão debaixo dos pés usa a táctica mais simples: a vitimização! Chora baba e ranho e jura a pés juntos que nada fez de mal e que a atacam sem motivo e que que ninguém a apoia. É uma peça de teatro deplorável porque a Inês é completamente transparente durante a sua performance: o único sentimento verdadeiro no meio daquela fantochada é o seu egocentrismo. As boas intenções e as boas ações da santa Inês nunca podem ser questionadas. Ela é o padrão do comportamento bondoso na Terra e acredita firmemente, sem qualquer dúvida, na certeza de que o seu lugar no Céu está assegurado. Cada um deixa-a entregue às suas convicções e continua o seu caminho.
Eu não sou telepata e também não faço futurologia. O que descrevo aqui é o que observo no comportamento diário da Inês. Seja quem for que venha a cruzar-se com ela irá encontrar estes pequenos problemas.
Nestes últimos meses de convívio com a Inês apercebi-me de uma transformação no seu espírito que, para ser franco, não estava nada à espera. Eu sempre tive uma imagem mental da Inês que resultou muito mais dos meus desejos, fantasias, ingenuidades e falta de experiência no convívio social. do que com aquilo que realmente transparecia dela. Era como se estivesse a olhar para ela através de um filtro com um forte sentimento de autocensura. Eu não conseguia pesar devidamente as ações de cada um de nós e culpava-me sempre pelas discussões ou mal-entendidos que inevitavelmente surgiam. Isto servia-lhe perfeitamente porque ter alguém que se culpava imediatamente por tudo o que de mau acontecia entre nós poupava-lhe imenso trabalho.
Uma imagem dela que eu fixei no meu espírito de forma férrea foi a de uma pessoa genuinamente humilde, alguém que não dava qualquer valor aos bens materiais ou ao estatuto social que se pretende projetar com a posse deles. Mas enganei-me! E foi aqui que apanhei o maior choque na terceira vez na minha vida que me cruzei com a Inês.
Continua...
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