As Noites Frescas e o Desejo de Morrer.

Eu não tenho jeito para escrever relatos detalhados da minha vida quotidiana. Disperso-me rapidamente por outros assuntos porque não tenho paciência para descrever os pormenores das minhas rotinas.
Nestes últimos dois dias sofri com enxaquecas e pouco fiz além de colocar em dia a leitura de alguns artigos de jornais que imprimi. Com todo aquele burburinho na política americana há sempre textos interessantes para ler. Mas não me apetece falar agora de política. Ouço o metro a passar mais além - ainda é cedo, são apenas 01:32 da manhã. Lá para as duas da manhã os comboios param até às cinco; é o novo horário de Verão em vigor. No Inverno circulam toda a noite e são bem necessários. Também ouço uns pássaros a chilrear e as vacas da vacaria do primo da Isabel a baterem nos gradeamentos - pobres animais que passam a vida inteira enfiados naquele armazém a serem sugados até ao tutano. Porque será que não organizam uma rebelião? Talvez seja o mesmo motivo que mantém o povo português calado perante as constantes atrocidades de um governo corrupto e criminalmente incompetente. Agora surgiu-me a questão: Quando se é incompetente é-se sempre criminoso ou há níveis de incompetência que não são criminosos? Se um médico é incompetente pode matar os seus doentes mas se um funcionário das Finanças é incompetente pode causar o surgimento de coimas ou penhoras, por exemplo, a alguém que tem todos os seus assuntos contributivos em ordem. No entanto esta pessoa pode ter uma elevada sensibilidade à sua imagem social, ser honrado, fazer questão de cumprir sempre os seus deveres de cidadão e sentir-se profundamente ofendido e perturbado com a acusação caluniosa de uma autoridade estatal que o deixa à mercê das más-línguas do seu meio social e essa condenação social - pois para o povo vão é-se culpado até prova de inocência e, mesmo assim, "ele/ela até passou uns cobres por debaixo da mesa" para calar a sua culpabilidade aos olhos do Estado - poderá ser suficiente para empurrar o contribuinte honesto para a doença ou o suicídio. Numa situação destas podemos concordar todos que a negligência do funcionário público foi criminosa porque, como no caso do médico, teve como consequência danos pessoais irreversíveis para a vítima. Será que aconteceu alguma condenação de um funcionário público das Finanças, ou qualquer outra agência encarregue de impor o poder burocrático sobre os cidadãos, que tivesse resultado na sua condenação por negligência criminosa? O "quintal" dos funcionários públicos, zelosos sacerdotes da Burocracia portuguesa, é demasiado grande e muito bem protegido por Sindicatos cuja única função é assertar e ampliar o poder burocrático em Portugal. Ser-se funcionário público no meu país é ser-se mais além, é como pertencer a uma força de elite, é estar vários degraus acima do cidadão comum. Coloquem-se de lado todas as dúvidas; este grupo tem efetivamente um poder absoluto sobre a vida dos "civis". São como um exército cujas armas são um universo de formulários hieroglíficos, a desinformação, as decisões irrevogáveis sempre assinaladas com o espectro de um grande carimbo vermelho, mecanismos de multas e penhoras sub-reptícias e o lema sagrado - "Todo o portador de senha é um ignorante que não tem qualquer necessidade de ser elucidado sobre as alucinações a que chama direitos." - que é gravado com ferros em brasa nos nobres peitos burocráticos à laia de medalha de honra e mérito burocrático. Obviamente os Sindicatos, grupos extremosos na defesa dos seus associados e sempre liderados por indivíduos que se deslocam para o trabalho com o cérebro enfiado em calda de vinho a martelo, têm uma visão completamente oposta. O que pensarão os sindicalistas quando alguém se suicida por causa de uma dívida que lhe é cobrada coercivamente na calada da noite burocrática e que se vem a comprovar com toda a documentação necessária e obrigatória que nunca teve a ver com ele/ela? Existirá naquelas mentes inebriadas pelos vapores das tintas das impressoras a laser algum espaço para reflexão? Empatia? A percepção de que é urgente reconstruir o sistema e colocá-lo ao nível de um ser-humano? Não creio! A calda de vinho e....!

E se eu começasse a deambular sobre a forma como o avanço na informática contribui decisivamente para a consolidação do poder brutal do culto burocrático? "O computador diz que não!" - a voz informática é acima de tudo, verdadeira, definitiva. "Preencha estes formulários e logo se verá mas não alimente a esperança. Deixe-a fazer um jejunzito, coisa que até é comum nas religiões" - lá está, mais uma semelhança à Religião. Já são muitas - julgamentos populares, acusações falsas, torturas, crucificações públicas, o vinho e os jejuns. Começo a ficar tentado a dizer que a Burocracia caminha a passos certos para ser uma religião. Mas haverá alguma forma de obter algo de positivo deste culto? Na verdade há duas: ter familiares ou padrinhos dentro do sistema ou dinheiro para untar mãozinhas perras. Mais duas semelhanças com as grandes Religiões organizadas. Todos nós já untamos as mãos a algum Santo ou fizemos um pedido à prima do Padre da freguesia para que alguém fosse a enterrar num local mais digno do cemitério, por exemplo.

Resumo: Absolutista, corrupto, elitista, racista, aspirador de fundos públicos, secretivo, caótico, sádico, amigo das árvores - é delas que vem o papel para todos os formulários necessários e obrigatórios - e a maioria dos membros está permanentemente no cio... esperem... ah, este último é na Segurança Social. Pode-se dizer que é um Governo dentro do Governo. Ferramentas de coerção, opressão, chantagem, facilitadores disto e daquilo são coisas que não faltam na Grande Igreja da Sagrada Burocracia do Funcionário Público. Nenhum Governo ousa tocar-lhes ou até contrariar o bebé porque estão bem conscientes que os Sindicatos ajeitam os galões e bloqueiam o país, indefinidamente se for necessário. Os media não escrevem uma única frase crítica sobre a irmandade da eterna burocracia para todos os oprimidos. A Justiça está infiltrada por estes fungos e o povo está apático regendo-se pela ínclita filosofia embutida na tirada oral do dia-a-dia "... cada um safe-se como puder!", ou seja, o mar está ruim por isso rema, rema Forrest, rema, rema!

Testemunhas contra o sistema: pontes, linhas de comboio, vários tipos de corda, os rios de Portugal, o mar, as paredes, os hospitais psiquiátricos... todas mudas!

"Tu não dizes nada e a mancha continua a crescer, a tomar conta de ti, a envolver-te... E tu não vês! 
  E o que é que isso interessa?" 

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