Como posso ser?
Os dias vão desfilando mais ou menos risonhos. Já há muito tempo que eu deixei de olhar para o Mundo como se fizesse parte dele. Sinto-me o mero espetador de um cortejo que vai desfilando perante o meu olhar mortiço como uma coleção festiva de sombras chinesas. Eu não sou parte do cortejo porque o Universo conspirou para que eu me mantivesse do lado de fora das linhas laterais. Já não jogo o jogo! Talvez seja o castigo por não ter aproveitado com respeito as oportunidades que me foram dadas para jogar. Talvez o verdadeiro culpado por esta situação de desastre em que se encontra a minha vida seja eu. Eu sou o assassino da minha existência de sonho. Meu Deus, como eu tinha planeado ser feliz quando chegasse aos 40! Bem empregado! Bem casado! Um orgulho para os meus pais! Nunca isto que sou! Nunca um neurótico, constantemente atolado numa depressão, viciado em analgésicos, com tendências suicidas que, neste ou naquele dia, olha à sua volta e com os olhos de gente, que ainda se aguen...